Um gole de amargura


 UM GOLE DE AMARGURA 


    Depois de um dia medonho no mercado público, descarregando caixotes dos caminhões como cabeceiro, costas ardendo, mãos calejadas sangrando sob o sol impiedoso da periferia, ele entra no bar simples com o amigo fiel, o único valente ao seu lado nesse inferno. Param no balcão rachado, suor misturado a poeira. Um copo de amargura pra mim, outro pro meu companheiro. O barman, conhecedor do ofício, não pergunta marca nem dose. Só serve o destilado vagabundo. Amargo na medida certa, arranha a garganta em brasa, mas desperta a cabeça zonza de cansaço. Brindam sem sorrir, olhos fundos. Não é celebração. É sobrevivência bruta.

    Cada gole carrega o peso do que deu errado. Os cinco filhos em escadinha, do caçula de um ano e pouco aos sete do mais velho, gritando na casa simples da rua de terra. A mulher ainda jovem, bonita, fogosa, que o trai com o vizinho safado. Ele sabe. Sente o cheiro no ar. Mas não confronta. Gosta dela demais e é frouxo demais, sem peito pra encarar a fera nem o amigo da esquina. O universo virou um xadrez torto com os vizinhos, ela traindo enquanto ele quebra o lombo pros outros. O amigo quebra o silêncio, voz rouca de tanto carregar fardos iguais, dizendo que amanhã a gente tenta de novo. Ele não responde. Só vira o copo, sentindo o travo seco de ainda estar de pé. Porque há dias em que a única vitória é não desistir naquela noite, nem da mulher, nem dos filhos, nem dessa vida que mastiga os fracos.

    O sereno da noite baixa devagar, trazendo o cheiro de poeira úmida das ruas de terra, misturado ao latido raivoso dos vira-latas disputando restos no pé de muro. Postes precários derramam luz amarelada sobre a casa simples, onde o mormaço do dia ainda gruda na pele como teia de aranha. Ele cruza o portão torto, quartos moídos pelo dia de cabeceiro no mercado, alma virada no avesso pelo copo de amargura que não apagou nada. Vê o vizinho encostado no muro, cigarro na boca, trocando um olhar de soslaio, cúmplice e zombeteiro, sem palavras. Ele engole seco e entra sem encarar.

    As crianças invadem em escadinha. O caçula de um ano e pouco gateia no chão de cimento rachado. Os outros até os sete anos penduram-se nas pernas, berrando por colo e pão. Ele os abraça, corpo pesado, sentindo o nó na garganta apertar mais que o cinto frouxo. Ela surge da cozinha escura, ainda jovem, bonita, fogosa como no primeiro dia, saia curta colada ao corpo suado, olhos que acendem faísca. Ele sente o desejo subir, traiçoeiro, misturado à repulsa que corrói as tripas. Sabe do cheiro alheio na pele dela, do riso abafado além do muro, mas não diz nada. Puxa-a pelo braço num abraço que é fome e raiva. Sussurra rouco que está morto de cansaço, os quartos virados. Ela ri baixo, mão na nuca dele, unhas cravando leve, não se sabe se posse, pena ou provocação. Diz para ele descansar, que amanhã tem mais caminhão.

    A noite avança sem piedade. O sereno vira lama fina no quintal e o silêncio só existe entre um choro e outro. Ele senta na beira da cama de casal, colchão vencido no meio, rangendo como se reclamasse junto. Tira as botas devagar, os pés inchados latejando, dedos esbranquiçados de tanto apertar caixote. As mãos ainda tremem, não de bebida, mas de raiva guardada há anos. Da janela sem vidro entra a gargalhada frouxa do vizinho. Ele fecha os olhos. Por um segundo imagina atravessar o muro e quebrar aquela cara. A imagem morre antes de nascer. Falta fôlego. Sobra medo. E a responsabilidade pesa mais que o ódio.

    Ela deita ao lado, corpo quente, familiar demais pra ser negado. Encosta nele como quem marca território. O cheiro é o mesmo de sempre, sabonete barato e suor doce, mas agora misturado à dúvida. Ele vira pro lado, não por desprezo, mas por cansaço de escolher entre humilhação e solidão. Ela pergunta se ele está estranho. Ele pensa em falar tudo, mas as palavras ficam presas como caminhão atolado em rua de barro. Diz apenas que está cansado.

    Os filhos dormem espalhados pela casa, pequenos corpos largados como quem confia no mundo apesar de tudo. Ele escuta a respiração deles e entende, mais uma vez, o tamanho da prisão que também é abrigo. Fica acordado encarando o teto manchado, contando rachaduras como quem conta dias. A amargura já não está mais no copo. Está no peito, assentada, pesada.

    Quando o dia clarear, ele vai levantar. Vai calçar a bota. Vai pro mercado. Não porque acredita em redenção, nem porque espera justiça. Mas porque não desistir não é um gesto heroico. É apenas o único jeito que ele conhece de continuar existindo.

Aermerson Barros ( Escritor )

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