Há uma diferença silenciosa entre casa e construção.
A construção é feita de tijolo, cimento, telha e madeira. Tem endereço, número na porta, escritura no cartório e paredes que o tempo vai gastando devagar. A construção pode ser vendida, derrubada, reformada, abandonada.
Mas casa é outra coisa.
Casa não se levanta com cimento. Casa se levanta com memória.
Casa é o cheiro do café passado cedo, quando o dia ainda nem acordou direito. É o som de passos pela madrugada, alguém levantando antes de todo mundo para começar a luta da vida. Casa é o rangido de uma porta antiga, o barulho de panela na cozinha, o latido do cachorro que sempre reconhece quem chega.
Casa é o cobertor puxado pela mãe quando a gente adormece no sofá.
É o jeito do pai olhar sério, às vezes duro, mas com aquela segurança silenciosa de quem parece dizer sem palavras que ali existe proteção.
Casa também são as arengas.
As brigas pequenas entre irmãos, as disputas bobas, os ciúmes infantis e as reconciliações rápidas. Na hora parecem tempestades, mas depois se tornam lembranças que aquecem o coração como fogo de fogão à lenha em noite fria.
Porque casa também é isso. Calor.
Não o calor do clima, mas o calor humano que envolve a gente como um cobertor invisível. Aquele sentimento de que, não importa o tamanho do mundo lá fora, existe um lugar onde a gente pode voltar sem precisar explicar quem é.
E curiosamente esse lugar nem sempre é o lugar onde a gente mora.
A vida empurra a gente para outros caminhos. Mudamos de rua, de bairro, de cidade. Às vezes mudamos até de país. Construímos outras casas, levantamos novos telhados, aprendemos a viver em novos quartos e novas janelas.
Mas mesmo assim dentro da gente continua existindo uma casa antiga.
Uma casa que não aparece no mapa.
Essa casa mora nas raízes.
Ela é feita de terra de infância, de poeira de quintal, de cheiro de chuva caindo no telhado velho. É feita de histórias contadas na mesa, de risadas inesperadas e de silêncios compartilhados.
E o mais curioso é que com o tempo a gente percebe que aquela casa não era apenas o prédio onde morávamos ou visitávamos.
A verdadeira casa eram as pessoas.
Era a presença do pai ocupando o espaço com autoridade e proteção.
Era a voz da mãe chamando pelo nome.
Eram os irmãos espalhados pela sala, pela cozinha, pelo quintal, vivendo juntos aquele tempo que parecia comum, mas que depois se revela sagrado.
Quando essas presenças mudam ou partem algo dentro da gente também muda.
A construção continua de pé. As paredes permanecem. A porta ainda abre. O quintal ainda está lá. Mas a casa, aquela casa profunda, parece ter se deslocado para outro lugar.
Ela se muda para dentro de nós.
E é então que entendemos uma coisa simples e ao mesmo tempo imensa. A casa nunca foi apenas um lugar.
Casa é um território invisível que carregamos conosco.
Ela vive na maneira como falamos, nos gestos que repetimos sem perceber, nas histórias que contamos aos amigos e aos filhos. Vive na saudade que sentimos quando lembramos de quem fomos.
Porque no fundo todos nós saímos de casa.
Saímos para enfrentar o mundo, construir caminhos, cometer erros, aprender, cair e levantar. Cada um toma um rumo diferente, segue uma estrada própria, descobre outros horizontes.
Mas existe algo que permanece.
Existe uma casa que não pode ser perdida.
Uma casa feita de origem, de pertencimento e de memória.
Uma casa que não precisa de paredes porque mora dentro da gente.
E por isso não importa onde a vida nos leve, não importa quantas cidades atravessemos ou quantas casas construamos ao longo do caminho.
Nossa casa verdadeira sempre viajará conosco.
Porque casa não é o lugar onde moramos.
Casa é o lugar de onde viemos.
E o lugar invisível que levamos dentro do coração para o resto da vida.
Escritor por Aermerson Barros do Nascimento

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