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A vida sentida


 

    Há uma hora da vida em que percebemos que não é possível carregar tudo. Não porque a casa esteja pesada, com seus móveis rangendo sob o peso de anos acumulados. Nem porque a família pese como um cobertor úmido de suor noturno. Nem porque os amigos tenham se tornado fardos, com suas vozes ecoando como ecos distantes em um quarto vazio. O peso verdadeiro está em outras coisas. Expectativas que apertam o peito como cordas encharcadas de chuva. Julgamentos que arranham a pele como unhas sujas de terra. A necessidade de aprovação que lembra o mofo de sótãos esquecidos. O medo da reprovação que gela os ossos como vento cortante em noites sem lua. É disso que, um dia, alguém decide se libertar, soltando as amarras com um suspiro que devolve ar aos pulmões.

    Quando digo que sou de largar tudo, não falo de abandonar o que amo. Não abandono a mesa onde minha família se senta, com o aroma quente de pão fresco misturado ao sal discreto de lágrimas antigas. Nem abandono os rostos que conhecem meu nome, repetido tantas vezes em abraços que já aprenderam o caminho das mãos. O que abandono são os tribunais invisíveis que as pessoas carregam dentro da cabeça umas das outras. Salões frios onde ecos de críticas velhas ainda pairam no ar e sentenças invisíveis cortam como lâminas gastas.

    Porque a verdade é simples. No fundo, todos somos frágeis. Somos como folhas secas que se quebram ao toque, guardando o cheiro amargo de outonos passados. Carregamos pequenos pecados, pequenos erros, pequenas intenções mal resolvidas. Coisas que se colam à pele como suor frio depois de uma confissão sussurrada. Há coisas que fizemos e que deixam um gosto metálico de arrependimento na boca. Há coisas que quase fizemos e que pairam como fumaça de fogueira apagada. Há também coisas que nunca fizemos, mas pensamos em fazer. E isso também nos acompanha, silencioso, como uma sombra fria encostada nas costas.

    O ser humano é uma coleção de tentativas. Tentamos ser melhores do que somos. Esticamos a alma como couro exposto ao sol. Tentamos parecer mais fortes do que estamos, mesmo quando os músculos tremem sob o peso de ilusões. Tentamos esconder aquilo que nos denuncia. Enterramos segredos no peito como sementes guardadas em terra escura.

    Ainda assim, dentro de cada um de nós existe um inventário secreto. Palavras duras que não deveriam ter sido ditas e continuam ecoando dentro do peito. Silêncios que deveriam ter sido quebrados e agora pesam como pedras no estômago. Desejos que visitaram a madrugada e deixaram o cheiro morno de lençóis amassados. Pequenas injustiças que justificamos para conseguir dormir em paz, embalados por mentiras que contamos a nós mesmos.

    Se o leitor for honesto agora, apenas por um instante, encontrará dentro de si algo assim. Não precisa ser grande. Às vezes é mínimo. Uma inveja que passou como um gosto azedo na língua. Um pensamento que não deveria ter sido pensado, como um espinho escondido sob a unha. Uma indiferença diante da dor de alguém, fria como o mármore de um túmulo esquecido.

    É nisso que somos parecidos. A humanidade não se encontra nos grandes feitos. Ela vive nas pequenas rachaduras da consciência. Fissuras por onde escapa aquilo que realmente somos.

    Pecado e acerto caminham juntos. São como dois irmãos que nunca se largam. Ninguém é apenas erro. Ninguém é apenas virtude. Somos uma contabilidade imperfeita entre aquilo que tentamos ser e aquilo que conseguimos ser.

    No meio de tudo isso existe a vida. Essa coisa estranha que se esvai dia após dia enquanto seguimos presos a rotinas que rangem como portas antigas. Obrigações que apertam como cintos úmidos. Relógios que insistem em marcar o tempo com o ruído seco de engrenagens. Máquinas invisíveis que parecem sugar o ar dos pulmões. Cada dia que passa nos atravessa um pouco. Como vento carregado de sal. Cada memória que guardamos constrói castelos que talvez ninguém mais visite além de nós mesmos. Torres silenciosas erguidas com as pedras quentes da saudade.

    Quando todas as ilusões caem, desmoronando com o estalo seco das mentiras expostas, sobra algo muito simples. Sobra o pouco. Algo macio e real como o pano áspero de uma toalha de família.

    Sobra uma família que conhece o cheiro da nossa pele e o ritmo da nossa respiração noturna.

    Sobram alguns amigos verdadeiros, cujos abraços parecem grudar na alma. Sobram lembranças que insistem em permanecer vivas, como o gosto de frutas maduras colhidas na pressa da juventude. Sobram nomes que continuam pulsando no pensamento como veias quentes sob a pele.

    E sobra também uma consciência cada vez mais clara de que o tempo não volta. Ele escorre entre os dedos como areia molhada.

    Talvez seja isso que resta quando se larga tudo o que não importa. O supérfluo se derrama como água suja de um balde antigo. Não sobra riqueza. Não sobra glória. Não sobra perfeição.

Sobra apenas a simplicidade de existir.

    E talvez seja exatamente isso que salva. Saber que somos humanos demais para sermos santos. Temos nossos cheiros terrenos e nossas falhas inevitáveis. Ainda assim, continuamos humanos o suficiente para tentar acertar mais uma vez. Seguimos carregando nossos pequenos pecados dentro do peito, como segredos quentes que lembram que ainda estamos vivos.

Por Aermerson Barros 

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